terça-feira, 31 de janeiro de 2012

The rain is gone

Tricha parou o carro perto da praia e saíram todos. Começou por sair ele pela porta do pendura, depois seguiu-se a cadela, um pastor alemão preto, que se esquivou logo lá para fora, e por último saiu ela trancando o carro.
Percorreram uma passadeira em madeira, ia do estacionamento até perto do mar. Na passadeira havia uns postes de eletricidade com colunas presas no cimo que passavam música dos anos 80 de uma radio qualquer
Foram passear pela praia, estava deserta por causa do frio. Embora o sol brilha-se e aquecesse as almas, era ainda inverno, a qualquer momento podia cair chuva e qualquer resfriado podia dar direito a uns dias de cama. A cadela brincava na areia, rebolava e corria, molhava as patas na água e fugia das ondas quando elas voltavam. A dona e o amigo, sempre atentos á pequena, caminhavam enquanto conversavam. Sim! Até então eram apenas amigos
- Parece que vai chover – observou ele
- Não esqueçamos que é inverno - gracejou Tricha
- Tens razão. Mas olha como ela se diverte.
- É! Ela gosta do mar. Parece que é filha de pescadores.
Por vezes chamavam a cadela para não se afastar muito e entretanto a conversa remeteu para o trabalho.
- Andam a apertar connosco no trabalho – comentou ela.
- Pois! Bem sei. Eu também levei com esse aperto. Ou chego a horas ou “ka-fucking-putt”. Já fui chamado uma centena de vezes ao gabinete. Tenho que chegar cedo, não posso arriscar, preciso deste trabalho.
- Tens que ter cuidado Eddie. É um trabalho de porcaria mas é o que há. Isto anda mal de trabalho, não é.
- É verdade. É um trabalho de merda mas alguém tens que o fazer. – Gracejou Eddie ao qual Tricha riu como uma perdida.
Entretanto começou a chuviscar.
- É melhor abrigarmo-nos – advertiu ela - está ali uma barraquinha ao pé da passadeira, vamos para lá
- Lassie – chamou.
Eles começaram a caminhar para a barraquinha enquanto a Lassie corria para os acompanhar. Chovia cada vez mais forte. Chegaram á barraquinha e já estavam ambos parcialmente molhados. Agora protegidos, não tinham outro remédio senão sentarem-se na areia e esperarem que parasse de chover. A cadela chegou entretanto toda molhada mas alegre e antes de se sentar á beira deles sacudiu-se, espalhando água. Mas eles não se zangaram com a pequena pelo contrário, riram com o sucedido.
Tricha depois de se rir pousou a cabeça no ombro dele e a mão sobre o seu peito.
- Obrigado por me fazeres companhia.
- Não tens de quê. Eu é que fico agradecido. Estava a morrer de tédio em casa.
- Olha… - chamou ela a atenção. - Comprei-te um presente de natal.
- Não precisavas mas de qualquer das formas estamos no início mês ~
- É Dezembro não é? Então para todos os efeitos é Natal.
- O que é?
- Tens que ver! – sorriu ela
Eddie desembrulhou o presente e verificou que se tratava de um relógio despertador, com radio incorporado.
- Um relógio? – estranhou
- Não é só um relógio tonto. É um relógio despertador. Sei que não precisas mas é para veres o que significa para mim chegares a horas ao trabalho. Não me agradava nada que fosses despedido por uma coisa tão estúpida, ficaria sozinha, és tudo o que eu tenho lá.
- Obrigado Tricha – deu-lhe um beijinho na cara mas ela desviou-se propositadamente para ele lhe beijar na boca. Ele também não se conteve, após o primeiro contacto, beijo-a novamente na boca, apaixonadamente, como se o quisesse ter feito há muito tempo. Beijaram-se mutuamente sem ligarem ao que passava em redor.
- Olha querida – disse Eddie sem se aperceber do termo que acabara de usar – parou de chover. Vamos aproveitar para ir embora.
Levantaram-se e caminharam de volta para o carro de mãos dadas. A Lasssie seguia-os atrás. Nas colunas presas no cimo dos potes passava Johnny Nash - I Can See Clearly Now. O Destino não podia escolher melhor timing nem melhor banda sonora.

sábado, 28 de janeiro de 2012

Agora que anoiteceu, Camila



Agora que anoiteceu, Camila, e que a Rua Augusta se esvaziou de turistas e de mendigos, o meu coração parece querer pernoitar nos escombros da tua memória e sinto que a brisa suave de Junho se compadece desta solidão trazendo-me o perfume espesso da tua pele, e caminho sem governo por entre o brilho lunar que cai sobre o Tejo e de que, um dia, foi feito o nosso amor. Desculpa se te pareço lamechas: o problema da solidão é a companhia que ela nos faz, e sei que ao te dirigir estas palavras, ainda que condenadas à dolorosa repetição que a eternidade ecoa, a noite acontecerá serena e, quem sabe, quererá ocupar à mesa o lugar que deixaste tão vago, tão só, tão silencioso.

Agora que anoiteceu, Camila, e que deambulo por entre as palavras esbarrando na tua imagem, gostaria de te poder dizer que desconheço o sítio dentro de mim por onde entraste, durante uma vida permaneceste e por onde saíste levando contigo uma parte importante de mim, da qual nunca quis abdicar senão pelo fio de sol que ao descer pelo teu rosto te ilumina, e que ao ignorar esse fragmento meu onde continuas, contudo, a doer, ignoro também o modo como te retirar da pressa frenética dos dias, do absurdo das horas, ignoro o modo como poderei deixar de antever a tua presença em todas as ruas e como poderei deixar de acordar sobressaltado, a meio da noite, cuidando que estivesses tão real tão palpável a centímetros de mim. Mais do que isto, Camila, quero dizer-te que se um dia regressares do rumor surdo que nasce da memória do teu corpo, encontrarás apenas a mobília coberta de pó, a loiça arrumada na louca monotonia que caiu sobre a vida, e nada de mim sobrará senão os meus ossos e o restolhar insistente das nossas memórias.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Trompete




Olhar para uma linha de comboio vazia, e ver um trompete tombado sobre os carris, não abona nada em favor da música. Mesmo sendo o trompete dourado e reluzente, o comboio nunca vai deixar que a música se oiça. Quem será que ficou sem ar nos pulmões e abandonou o trompete na linha do comboio? Quem foi, não sabe que o comboio não tem dedos para tocar. Se o trompete pudesse tocar sem o sopro de alguém, podia ser ele próprio a contar-nos a história, que começa, quando um pai, que nem sequer é surdo, decide que o filho tem que viver a música, em vez ele.

Exercício, original e sem revisão, do início de Romance com base na história da Marisa.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Eu não me considero nada em relação à escrita, mas confesso que a minha queda é para a poesia, então a propósito disso e depois de muitos pedidos deixo-vos com um poema da minha autoria.

limitar o limite
Vida passa,
Por nós sem parar,
Limites impostos,
Para alguém os traçar,
Distante paraíso,
Da loucura total,
Distante silêncio,
Da palavra desigual,
Ternura imensa,
Num simples destino,
Fraqueza demente,
D`um cómodo caminho.

Andreia Tavares

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Zumbido

Era então certo que iria ali ficar, ficara assim decidido. a chuva continuava a cair miudinha, condição que nem me incomodava.
Preparava-me para beber um copo de café e abrir a lata de anchovas quando subitamente comecei a ouvir uma espécie de zumbido, um “ ZZZZzzzzzzzzzzzz” forte e contínuo que me estava a fazer confusão, a cana ludibriou-me porque oscilava ao sabor da corrente e só me apercebi que algum peixe tinha ficado agarrado quando me aproximei da cana, dobrei-me e encostei o ouvido ao carreto. Não era necessário ser Einstein para deduzir que estava lá um peixe e não era pequeno. Apressadamente agarrei na cana e recolhi a linha, ainda cheguei a sentir um esticão mas a linha recolheu-se sem qualquer dificuldade e achei natural que o que lá estava tinha acabado de se soltar. Recolhi toda a linha e de facto como era previsível não estava lá nada, estava a chumbada presa na madre, mas tudo o resto tinha o levado o peixe: o estralho, o anzol e o peixe em si. Olhei o mar e raciocinei sobre que tinha feito de errado, mas o que está feito, feito está. Voltei a por a isca e desta vez apertei bem os nós. Nenhum peixe havia de lá escapar agora. Atirei o peso novamente e desta vez consegui atira-lo até cerca de 30 metros. E esperei. Pouca se faz aqui a não ser esperar e divagar. Quando estou sozinho, o que é muito frequente, geralmente ponho sempre uma musica na radio, é a Eunice quem me faz companhia usualmente, gosto também muito de escrever mas o pais não está para escritas utilmamente, bem, o pais não está para nada utilmamente como pode o povo pagar por uma crise criada pelos grandes. Não vou divagar sobre isso recusou-me esse tema só me faz triste, a crise e o amor. Se ao menos em miúdo, tivesse fechado os olhos á economia e ao amor seria agora feliz… Burro é certo, mas feliz.
A cana vibrava novamente, mais umas frases solta saídas do cerne do meu pensamento e estaria ali um peixe a debater-se para escapar. Era só uma questão de esperar. Esperar.

domingo, 11 de dezembro de 2011

AS VINTE REGRAS DE S. S. VAN DINE PARA SE ESCREVER UM BOM ROMANCE POLICIAL:

1. O leitor deve ter oportunidade igual à do detetive de solucionar o mistério. Todas as pistas devem ser claramente enunciadas.

2. Nenhum truque ou tapeação proposital deve ser utilizado pelo autor, senão os que tenham sido legitimamente empregados pelo criminoso contra o próprio detetive.

3. Não deve haver interesse amoroso no entrecho. A questão a ser deslindada é a de levar o criminoso ao tribunal e não a de levar um casal ao altar.

4. Jamais o detetive ou algum investigador deve ser o culpado. Isso seria tapeação: naturalmente porque o raciocínio do leitor está voltado para o rol de suspeitos.

5. O culpado deve ser identificado mediante deduções lógicas e não por acidente, coincidência ou confissão forçada. O contrário disso seria mostrar ao leitor que todo o seu trabalho de dedução foi inútil pois o tempo todo o autor tinha o nome do criminoso.

6. A novela de detetive tem de ter um detetive. Alguém que “detecte”. Que analise as pistas e junte-as a fim de identificar o autor da sujeira relatada no primeiro capítulo.

7. É necessário que haja um cadáver. Quanto mais morto, melhor. Os crimes menores que homicídio são insuficientes. Só o assassinato desperta no leitor seu sentimento de vingança e horror.

8. O problema do crime deve ser solucionado por meios rigorosamente naturais. Métodos como leitura da mente, reuniões espíritas, bolas de cristal estão excluídos. O leitor deve ter oportunidade igual à do detetive para solucionar o mistério; se ele tiver que competir com espíritos, bolas de cristal, etc, fica em desvantagem.

9. Cada história deve ter unicamente um detetive. Uma história com muitos detetives bagunça o raciocínio lógico da narrativa, além de deixar o leitor, que é único, em desvantagem. Na novela policial, o leitor se identifica com o detetive; havendo mais de um detetive, ele não sabe a quem dirigir sua atenção.

10. O culpado deve ser alguém que desempenhou papel mais ou menos destacado no entrecho. Alguém com quem o leitor se familiarizou. Se o autor apresenta um desconhecido como criminoso, estará admitindo sua derrota diante do leitor.

11. Criados – mordomos, valetes, guardas florestais, cozinheiros – não devem ser escolhidos pelo autor como culpados. Isso constitui uma solução fácil demais. O leitor ficará frustrado, achando que perdeu tempo tentando identificar um personagem tão desimportante. Se o crime foi obra de um trabalhador braçal, o autor não deveria ter escrito um livro a respeito.

12. Deve haver apenas um culpado, por maior que seja o número de homicídios cometidos. Esse culpado poderá ter um auxiliar, mas é nele que recairá a cólera do leitor.

13. As sociedades secretas, máfias, camorras, etc, não devem ter lugar em histórias de detetives. O assassinato verdadeiramente lindo e fascinante estaria comprometido por essa culpabilidade por atacado. Além disso, se o assassino pertence a um grupo criminoso, ele conta com uma rede de proteção, o que tira o fascínio do suspense.

14. O método utilizado para o assassinato e o meio de descobri-lo devem ser lógicos e científicos. Quer dizer que os meios pseudocientíficos e os dispositivos puramente imaginativos ou especulativos não serão tolerados no roman policier. O autor deve se limitar aos venenos e drogas conhecidos da população. Se inventar coisas mirabolantes sairá da área do romance policial e entrará no romance de aventura.

15. A verdade do problema deve estar bem à vista em todos os momentos da narrativa. O leitor
tem que ser arguto para perceber. Quando o leitor chegando à última página recomeça a leitura deve pensar: Puxa, por que eu não percebi isso? O leitor tem que se convencer que não é tão arguto quanto o detetive. Uma novela de mistério nunca será de mistério para todos os leitores pois alguns deles descobrirão o assassino antes do detetive.

16. Uma novela de detetives não deve conter compridas passagens descritivas, nenhum rebuscamento literário em questões secundárias, nenhuma análise sutilmente elaborada dos personagens, nenhuma preocupação “atmosférica”. Tais procedimentos retardam a ação e carreiam para a história elementos que não têm nada a ver com ela. Leitores de novelas policiais não buscam enfeites literários, estilo, belas descrições, mas o estímulo mental e a atividade intelectual.

17. Jamais se deve atribuir a um criminoso profissional a culpabilidade do crime em uma história de detetives. Os crimes cometidos por arrombadores e bandidos estão na esfera da polícia – e não na esfera de autores e detetives amadores (leitores). O crime verdadeiramente fascinante é o cometido por uma coluna-mestra da igreja ou alguma solteirona conhecida por seus atos de caridade.

18. O crime na história policial jamais deve ocorrer por acidente ou suicídio. Encerrar a história com esse anticlímax corresponde a um truque contra o leitor.

19. O móvel do crime na novela policial deve ser de ordem pessoal. Ciúme, cobiça, amor, ódio, vingança, medo, tara, etc. Sair desses motivos equivaleria a retirar do leitor um elemento de dedução. Tramas internacionais pertencem a outro gênero – o gênero da espionagem. O crime deve refletir a vivência cotidiana do leitor, proporcionar-lhe certo escapamento para seus próprios desejos e emoções reprimidas.

20. O autor “policial” não deve usar os meios dedutíveis ou provas já usados em demasia por outros autores, pois eles já são conhecidos dos leitores de romances policiais. Quando o escritor usa esses meios está confessando sua falta de talento e originalidade.

Anotado e adaptado por Joaquim Nogueira, do livro O MUNDO EMOCIONANTE DO
ROMANCE POLICIAL de Paulo de Medeiros e Albuquerque.

S. S. Van Dine, pseudónimo de Willard Huntington Wright, é o escritor norte-americano que criou o detetive Philo Vance.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Mote do exercício: construir um texto com os seguintes dados: noite, lua cheia, alguém atravessa um jardim e no meio do caminho encontra um corpo caído...

Dizia-se na aldeia que se alguém ousasse entrar naquele jardim à noite, a lua ficaria cheia, independentemente da fase em que se encontrasse. Guilherme quis desafiar a lenda e decidiu fazer-se enterrar em quarto minguante. Jura agora a pés juntos que é tudo mentira. Mas na verdade os seus pés estão juntos para sempre. Deitados e enterrados.
A mãe do rapaz deseja agora tirar a teimas, e garante que há-de lá encontrar um corpo caído. Quanto mais não seja o seu. Ao lado do filho, claro.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Perdi-me...

Ao passar na vila, deparei-me com um ambiente fantasmagórico, um nevoeiro que se assentou assim do nada. Consegui no entanto avistar um vulto, era um homem com a cara completamente ressequida, era de facto um campino. Sobre o seu rústico casaco pendiam vestígios de palha tal como era feito o seu chapéu, parecia ter apenas um olho e a sua dentadura estava mais podre que o cerne oco de um carvalho com mais de 1000 anos. O Velho começou a dançar uma melodia maluca mas no entanto cativante, sapateou da seguinte forma: Um passo a frente, outro atrás, um outro à direita e seguidamente à esquerda, tirou o chapéu e deu uma voltinha, Ihá. A musica tão chamativa que outros pálidos fantasmas se alçaram das suas campas e dançaram. Todos seguiam os passos do líder. Do mestre. Quem era? Perguntam vocês tal como eu me perguntei perplexo a olhar aquele espectáculo. O vento passava uivando e quando passava, de vez em quando, sussurrava assustadoramente Coton Eye Joe. Petrificado ali fiquei, aliás só as minhas pernas assustadoramente se mexiam, dançavam aquela dança demoníaca, ritmada, quase coreografada, sem parar, enquanto a minha cara espelhava espanto e medo ao mesmo tempo, aliás expressava todas as sensações de incredibilidade e horror que se possam ter numa só expressão. Dancei até de madrugada quando acabou o pesadelo. Enfim; parei de dançar.

Eddie

Sem pudor...

...Mas com vergonha, aqui fica uma coisa (não lhe encontrei melhor nome) que escrevi há muito tempo.


Trazia os olhos carregados de amor
e as mãos sedentas de um abraço,
mas afinal no peito só trazia dor
e o coração esse, um pedaço.

Pedaço do que em tempos foi
e jamais voltaria a ser,
pena que eu não possa, anjo meu,
pela tua boca sofrer.

E sem mais desapareceu,
sem saber que as mãos minhas,
queriam pouco do que era seu.
voariam com um abraço...
Mas antes de nascer, morreu.

25 Junho 2000

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Conversa de embalar

É uma delícia ouvir esta mulher falar.
De tempos a tempos, volto a descarregar este podcast e adormeço com ele.
Admito que me agrada o Espanhol sul americano, mas para além disso, esta entrevista é de facto uma doçura do princípio ao fim.
Numa aula em que falámos de ideias para livros, a Ana Sofia descreveu uma personagem que por qualquer motivo se viu entregue a um longo período de reclusão, o que a levou a um confronto inevitável consigo própria (corrige-me se estiver errada, Ana Sofia). Nesse dia, lembrei-me novamente desta entrevista, em particular da passagem em que Ingrid Betancourt diz que o que mais a amedrontou foram os ruídos da selva que não conseguia identificar. Estranho, não é? Afinal não conhecemos tudo. Gostei desta pequena lição (e de todas as outras também), e fiquei irremediavelmente apaixonada pela sabedoria de Ingrid.
Por isso, se alguém ainda não ouviu, aqui fica.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

"In My Mind" Music Video



In my mind
In a future five years from now
I'm a hundred and twenty pounds
And I never get hungover
Because I
Will be the picture of discipline
Never minding what state I'm in
And I will be someone I admire
And it's funny how I imagined
That I would be that person now
But it does not seem to have happened
Maybe I've just forgotten how
To see
That I'm not exactly the person that I thought I'd be.

And in my mind
In the far-away here-and-now
I've become in-control somehow
And I never lose my wallet
Because I
Will be the picture of discipline
Never fucking-up anything
And I'll be a good defensive driver

And it's funny how I imagined
That I would be that person now
But it does not seem to have happened
Maybe I've just forgotten how
To see
That I'll never be the person that I thought I'd be.

And in my mind
When I'm old I am beautiful,
Planting tulips and vegetables
Which I will mindfully watch over

Not like me now
I'm so busy with everything
That I don't look at anything

But I'm sure I'll look when I am older

And it's funny how I imagined
That I could be that person now
That that's not what I want
But that's what I wanted
That I'd be giving up somehow
How strange to see
That I don't want to be the person that I want to be.

And in my mind
I imagine so many things
Things that aren't really happening
And when they put me in the ground

I'll start pounding the lid,
Saying, "I haven't finished yet,
I still have a tattoo to get,
It says, 'I'm living in the moment'".

And it's funny how I imagined
That I could win this win-less fight
Maybe it isn't all that funny
That I've been fighting all my life
But maybe I have to think it's funny
If I want to live before I die
And maybe it's funniest of all
To think I'll die before I actually
See
That I am exactly the person that I want to be.

Fuck yes.

I am exactly the person that I want to be.


Amanda Palmer

Mindelo

Partilho este quadro, que tem dois metros por um metro e meio (o equivalente a uma cama de casal), para que entendam melhor algumas das ideias que tento expressar. 
Pintei este quadro depois de visitar Cabo Verde. Representa uma vista, afortunada, da cidade do Mindelo na ilha de S. Vicente. Foi pintado com o objectivo de especificar muitos detalhes da cidade, como casas, os seus telhados coloridos, os barcos, as gaivotas e tudo o mais que fosse possível a um amador com pouco jeito para desenho, porém, quando cheguei ao ponto em que o quadro está, detive-me com as cores, que expressam muito mais do que desejei para o quadro todo e nunca mais tive coragem de lhe tocar. Não fui capaz de aceitar perder o que já tinha feito. Na pintura uma alteração é irreversível.
Estarei apenas com medo de o acabar? Estarei à altura? Valerá a pena acabá-lo?

A grande lição que tiro deste módulo é que a escrita não suja as mãos.


Última estação de Metro


João esperou até à última estação, deixou sair os últimos passageiros e quando teve a certeza que estava sozinho, deteve-se em frente ao mapa da rede do metro, abanou a lata de tinha preta e opaca, e apagou o Rossio. Sem querer, borrou também parte do Martin Moniz. A imperfeição da sua primeira pintura não o demoveu para continuar a repeti-la em cima de todas as portas da carruagem e o Martin Moniz, e mesmo a Baixa-Chiado, foram mesmo completamente poupadas em algumas das réplicas da sua obra.
Enquanto fugia, sentiu-se eufórico, como se tivesse conseguido apagar a vergonha de preto.

P.S. Mantenho a última frase por coerência com a aula mas concordo em cortá-la, ou apagá-la de branco.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Diálogos - Hoje há greve

_ Então?! Que surpresa! O doutor por cá? _ Sim, aqui quedamo-nos desterrados do mundo. _ Se houvesse meios, o doutor ia ou ficava? _ De certeza ficaria, nada há que me estimule mais do que ser do contra. _ E contra o quê está o doutor neste momento? _ Estou contra os que estão a favor. _ É uma perspectiva interessante. _ Sim, verdade! Por isso que a defendo acirradamente. _ Faz bem, Doutor, haja alguém que não seja óbvio! É servido? _ Com certeza, caro companheiro de luta. E grita para o empregado: _ Sr. António, é mais uma aqui pro canto !

domingo, 27 de novembro de 2011

Micro-conto 150 caracteres

As latas nas prateleiras do mercado são um desafio que Helena, a anã, vence com ajuda da filha mongol alçada pelo velho tísico. Será Deus um cómico?

sábado, 26 de novembro de 2011

Exercício - Descrição de personagem

As calças do Rui estão na eminência de lhe escorregarem do traseiro, se encolhesse apenas um pouco a barriga, enquanto caminha, ligeiramente fora do passeio e estrada fora. Tem as mãos enfiadas até ao fundo dos bolsos, a cabeça inclinada para baixo, um gorro de lã que deixa de fora apenas os lóbulos das orelhas.
Rui gosta do Inverno porque usando uma barba - que desejava fosse mais cerrada - e o gorro de lã enfiado até às orelhas, há poucas probabilidades de alguém o reconhecer. Há poucas probabilidades, até, de ele próprio se reconhecer. Quanto menos vir de si, melhor.
Se ao menos pudesse cortar o raio da barba e pegar no estupor do carro, ali ao fim da rua, sem o deixar ir abaixo três vezes. Consecutivamente, até se enervar e bater com a porta. Aos trinta anos, pensava ele, devia ser capaz de conduzir um carro. Não fossem as estratégias mentais que inventara para não ter de sair de casa.
Pois agora tinha de sair. E tinha de conduzir um carro. E não tinha apenas de o fazer. Queria-o. Desejava-o tanto quanto desejava ser outra pessoa.

Sobre o Ciúme

Essas farpas que me atiras no meio do teu descuido, são incisivas e doem que se farta. Geralmente, atingem-me a zona do peito. Quando é assim, o mal não é tão grande. Limito-me a absorvê-las, por osmose, e esperar que, esfregando-me com diligência, saia delas o maior da porcaria. No entanto, é mais grave quando me atingem a cabeça à retaguarda. À traição! O punho esmaga-me o cérebro. Depois desce com torturante lentidão; deformando-me o pescoço como se fosse um pastel de massa tenra. E sinto-me comprimir aos bocadinhos, a ficar mais denso e pequenino até que nada reste de mim senão um ponto de singularidade, na eminência de tal rebentamento que vai tudo pelo ar. Vou eu, vais tu e vai quem com ele apanhar. Dá-se a birra no seu maior expoente. Mas uma birra criativa, bonita de ser ver, fértil de factos, proficiente na recolha de detalhes, e exemplar na produção de conclusões calamitosas. E do alto da minha privilegiada estanquicidade e para que vejas, enterro as farpas ainda mais fundo. Já não são farpas, são armas, são filhos, são aliados no lúdico processo que passa a ser a tua obliteração.

Enfim, é uma questão de busca de empate ou empatia, já que também me sinto obliterado. Ora desce cá para baixo, para que tenhas uma perspectiva favorecida do que é sentirmo-nos diminuídos. Senta-te aqui comigo, na água fétida da humilhação, para que te possa medir, pesar e comparar fria e cirurgicamente. É isso que faço dentro da minha cabeça. É uma oficina de retalhos, esta minha cabeça. As minhas melhores ideias são abortos edificados do maior calibre. Mas, também, trabalho com o que tenho: as tuas farpas.

Será?

Um escritor é a combinação fatal entre timidez e ego.

Inesperadamente no quarto

Ela entrou em casa batendo furiosamente a porta da entrada, dirigia-se em passo rápido para o quarto como se nenhuma alma a conseguisse travar, no seu interior crescia fúria, fúria misturada com ânsia, desejo, saudade e muitos mais sentimentos que compõem a paixão. Os seus olhos azuis ardiam de sensualidade, flamejavam como duas chamas saídas de maçaricos. Ao longo do extenso corredor que dava para o quarto, ia tirando as peças de roupa, uma a uma. O curto casaco de cabedal foi o primeiro a ficar junto a porta, depois seguiu-se o cinto de couro que atirou para a mesa do corredor juntamente com as chaves de casa, soltou então o elástico que lhe prendia o negro cabelo liso balançando-o suavemente para o soltar na totalidade e com um movimento brusco da cabeça atirou-o para trás das costas. Começou a tirar as botas violentamente com o auxílio dos pés ficando ambas separadas por um metro, agora os seus pés nus caminhavam na carpete percorrendo suavemente e sem qualquer barulho a distância que remanescia até ao quarto. Quando começou a desapertar os primeiros botões das calças estava já a meio do corredor, e cada passo que dava desencadeava o deslizamento gradual das mesmas, expondo a sua roupa íntima que era de um vermelho mais tinto que o vinho. Ao chegar á porta do quarto, abriu-a com força, onde ele se encontrava, á janela a fumar um cigarro, com o seu casaco de veludo negro e o chapéu de capitão que nem sequer tinha ainda tirado. Dirigiu-se a ele como uma fera sobrenatural, nada a parava, algo a consumia ardentemente como uma chama consome a madeira e o oxigénio em absoluta combustão. Sim era isso, podia-se dizer que ela estava em plena combustão, estava brava, esperara aquele momento vezes sem conta, contara na memória infinitas vezes, fizera contas com os dedos, fizera cálculos nas horas de trabalho, em casa, no banho, imaginara mais de mil vezes o filme, o episódio, a situação. Já não o via há duas semanas, com a agravante que tinham discutido antes de ele embarcar. Era a hora de por tudo em pratos limpos. O acontecimento deu-se todo numa fracção de segundo: Sem lhe dar tempo de pensar ela arrancou-lhe o cigarro da mão, deu um bafo e atirou-o pela janela. Espantado, ele não teve tempo de dizer qualquer palavra nem de fazer qualquer expressão, nem sequer teve possibilidade de executar qualquer gesto. No entanto todo o filme que ela fizera, todo o arranjo, todos os cálculos, a preparação; tudo se esvanecera por completo da sua mente, mas ela determinada não ia abdicar daquilo que tinha para dizer. Os seus olhos cruzavam-se com os deles e que fez ela então. Beijou-o, beijou-o tão fortemente que não acredito que haja beijo mais grandioso e digno de ser trovado como aquele. Beijou-o dizia eu, com tanta paixão que era agora impossível reproduzir tal beijo novamente. Beijou-o e começou a tirar-lhe a roupa a qual acção ele não se opôs, acompanhou-a tirando-lhe a roupa que restava no corpo. Ela beijou-o apaixonadamente enquanto as mãos de ambos percorriam os corpos já nus, prontos a fundirem-se num só. Faltara apenas ela dizer aquilo que a melindrava, que guardara desde a ultima discussão que tiveram. Cruzou o olhar com o dele e passou-lhe a mão pela face, enquanto ele mordiscava-lhe o pescoço ela disse-lhe ao ouvido: “Amor é fogo que arde sem se ver; É ferida que dói e não se sente; É um contentamento descontente; É dor que desatina sem doer …. “ Não conseguiu no entanto acabar aquilo que tanto esperará para lhe dizer, ela soluçava, as pernas desfaleciam, tremiam de desejo o seu coração originava batidas que parecia um bombardeiro em plena guerra, as mãos dele sentiam todos os centímetros do corpo dela, sentiam os seios, acariciavam-lhe as nádegas, acarinhavam-lhe o sexo, sentiam-lhe o prazer, afagavam lhe o cabelo e a cara, tudo, de forma tão perfeita como se fosse um escultor exímio a trabalhar na sua mais recente obra e cuja loucura lhe tenha ceifado a vida. Os corpos suados de ambos uniam-se por vontade da paixão e microscopicamente, átomos e electrões chocavam naquele quarto e o tornava cada vez mais abafado o que contudo não os impediu de continuarem, cada um deu ao outro aquilo que mais tinha de valor… durante horas a fio.

O poeta