quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Conversa de embalar

É uma delícia ouvir esta mulher falar.
De tempos a tempos, volto a descarregar este podcast e adormeço com ele.
Admito que me agrada o Espanhol sul americano, mas para além disso, esta entrevista é de facto uma doçura do princípio ao fim.
Numa aula em que falámos de ideias para livros, a Ana Sofia descreveu uma personagem que por qualquer motivo se viu entregue a um longo período de reclusão, o que a levou a um confronto inevitável consigo própria (corrige-me se estiver errada, Ana Sofia). Nesse dia, lembrei-me novamente desta entrevista, em particular da passagem em que Ingrid Betancourt diz que o que mais a amedrontou foram os ruídos da selva que não conseguia identificar. Estranho, não é? Afinal não conhecemos tudo. Gostei desta pequena lição (e de todas as outras também), e fiquei irremediavelmente apaixonada pela sabedoria de Ingrid.
Por isso, se alguém ainda não ouviu, aqui fica.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

"In My Mind" Music Video



In my mind
In a future five years from now
I'm a hundred and twenty pounds
And I never get hungover
Because I
Will be the picture of discipline
Never minding what state I'm in
And I will be someone I admire
And it's funny how I imagined
That I would be that person now
But it does not seem to have happened
Maybe I've just forgotten how
To see
That I'm not exactly the person that I thought I'd be.

And in my mind
In the far-away here-and-now
I've become in-control somehow
And I never lose my wallet
Because I
Will be the picture of discipline
Never fucking-up anything
And I'll be a good defensive driver

And it's funny how I imagined
That I would be that person now
But it does not seem to have happened
Maybe I've just forgotten how
To see
That I'll never be the person that I thought I'd be.

And in my mind
When I'm old I am beautiful,
Planting tulips and vegetables
Which I will mindfully watch over

Not like me now
I'm so busy with everything
That I don't look at anything

But I'm sure I'll look when I am older

And it's funny how I imagined
That I could be that person now
That that's not what I want
But that's what I wanted
That I'd be giving up somehow
How strange to see
That I don't want to be the person that I want to be.

And in my mind
I imagine so many things
Things that aren't really happening
And when they put me in the ground

I'll start pounding the lid,
Saying, "I haven't finished yet,
I still have a tattoo to get,
It says, 'I'm living in the moment'".

And it's funny how I imagined
That I could win this win-less fight
Maybe it isn't all that funny
That I've been fighting all my life
But maybe I have to think it's funny
If I want to live before I die
And maybe it's funniest of all
To think I'll die before I actually
See
That I am exactly the person that I want to be.

Fuck yes.

I am exactly the person that I want to be.


Amanda Palmer

Mindelo

Partilho este quadro, que tem dois metros por um metro e meio (o equivalente a uma cama de casal), para que entendam melhor algumas das ideias que tento expressar. 
Pintei este quadro depois de visitar Cabo Verde. Representa uma vista, afortunada, da cidade do Mindelo na ilha de S. Vicente. Foi pintado com o objectivo de especificar muitos detalhes da cidade, como casas, os seus telhados coloridos, os barcos, as gaivotas e tudo o mais que fosse possível a um amador com pouco jeito para desenho, porém, quando cheguei ao ponto em que o quadro está, detive-me com as cores, que expressam muito mais do que desejei para o quadro todo e nunca mais tive coragem de lhe tocar. Não fui capaz de aceitar perder o que já tinha feito. Na pintura uma alteração é irreversível.
Estarei apenas com medo de o acabar? Estarei à altura? Valerá a pena acabá-lo?

A grande lição que tiro deste módulo é que a escrita não suja as mãos.


Última estação de Metro


João esperou até à última estação, deixou sair os últimos passageiros e quando teve a certeza que estava sozinho, deteve-se em frente ao mapa da rede do metro, abanou a lata de tinha preta e opaca, e apagou o Rossio. Sem querer, borrou também parte do Martin Moniz. A imperfeição da sua primeira pintura não o demoveu para continuar a repeti-la em cima de todas as portas da carruagem e o Martin Moniz, e mesmo a Baixa-Chiado, foram mesmo completamente poupadas em algumas das réplicas da sua obra.
Enquanto fugia, sentiu-se eufórico, como se tivesse conseguido apagar a vergonha de preto.

P.S. Mantenho a última frase por coerência com a aula mas concordo em cortá-la, ou apagá-la de branco.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Diálogos - Hoje há greve

_ Então?! Que surpresa! O doutor por cá? _ Sim, aqui quedamo-nos desterrados do mundo. _ Se houvesse meios, o doutor ia ou ficava? _ De certeza ficaria, nada há que me estimule mais do que ser do contra. _ E contra o quê está o doutor neste momento? _ Estou contra os que estão a favor. _ É uma perspectiva interessante. _ Sim, verdade! Por isso que a defendo acirradamente. _ Faz bem, Doutor, haja alguém que não seja óbvio! É servido? _ Com certeza, caro companheiro de luta. E grita para o empregado: _ Sr. António, é mais uma aqui pro canto !

domingo, 27 de novembro de 2011

Micro-conto 150 caracteres

As latas nas prateleiras do mercado são um desafio que Helena, a anã, vence com ajuda da filha mongol alçada pelo velho tísico. Será Deus um cómico?

sábado, 26 de novembro de 2011

Exercício - Descrição de personagem

As calças do Rui estão na eminência de lhe escorregarem do traseiro, se encolhesse apenas um pouco a barriga, enquanto caminha, ligeiramente fora do passeio e estrada fora. Tem as mãos enfiadas até ao fundo dos bolsos, a cabeça inclinada para baixo, um gorro de lã que deixa de fora apenas os lóbulos das orelhas.
Rui gosta do Inverno porque usando uma barba - que desejava fosse mais cerrada - e o gorro de lã enfiado até às orelhas, há poucas probabilidades de alguém o reconhecer. Há poucas probabilidades, até, de ele próprio se reconhecer. Quanto menos vir de si, melhor.
Se ao menos pudesse cortar o raio da barba e pegar no estupor do carro, ali ao fim da rua, sem o deixar ir abaixo três vezes. Consecutivamente, até se enervar e bater com a porta. Aos trinta anos, pensava ele, devia ser capaz de conduzir um carro. Não fossem as estratégias mentais que inventara para não ter de sair de casa.
Pois agora tinha de sair. E tinha de conduzir um carro. E não tinha apenas de o fazer. Queria-o. Desejava-o tanto quanto desejava ser outra pessoa.