sábado, 10 de dezembro de 2011

Mote do exercício: construir um texto com os seguintes dados: noite, lua cheia, alguém atravessa um jardim e no meio do caminho encontra um corpo caído...

Dizia-se na aldeia que se alguém ousasse entrar naquele jardim à noite, a lua ficaria cheia, independentemente da fase em que se encontrasse. Guilherme quis desafiar a lenda e decidiu fazer-se enterrar em quarto minguante. Jura agora a pés juntos que é tudo mentira. Mas na verdade os seus pés estão juntos para sempre. Deitados e enterrados.
A mãe do rapaz deseja agora tirar a teimas, e garante que há-de lá encontrar um corpo caído. Quanto mais não seja o seu. Ao lado do filho, claro.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Perdi-me...

Ao passar na vila, deparei-me com um ambiente fantasmagórico, um nevoeiro que se assentou assim do nada. Consegui no entanto avistar um vulto, era um homem com a cara completamente ressequida, era de facto um campino. Sobre o seu rústico casaco pendiam vestígios de palha tal como era feito o seu chapéu, parecia ter apenas um olho e a sua dentadura estava mais podre que o cerne oco de um carvalho com mais de 1000 anos. O Velho começou a dançar uma melodia maluca mas no entanto cativante, sapateou da seguinte forma: Um passo a frente, outro atrás, um outro à direita e seguidamente à esquerda, tirou o chapéu e deu uma voltinha, Ihá. A musica tão chamativa que outros pálidos fantasmas se alçaram das suas campas e dançaram. Todos seguiam os passos do líder. Do mestre. Quem era? Perguntam vocês tal como eu me perguntei perplexo a olhar aquele espectáculo. O vento passava uivando e quando passava, de vez em quando, sussurrava assustadoramente Coton Eye Joe. Petrificado ali fiquei, aliás só as minhas pernas assustadoramente se mexiam, dançavam aquela dança demoníaca, ritmada, quase coreografada, sem parar, enquanto a minha cara espelhava espanto e medo ao mesmo tempo, aliás expressava todas as sensações de incredibilidade e horror que se possam ter numa só expressão. Dancei até de madrugada quando acabou o pesadelo. Enfim; parei de dançar.

Eddie

Sem pudor...

...Mas com vergonha, aqui fica uma coisa (não lhe encontrei melhor nome) que escrevi há muito tempo.


Trazia os olhos carregados de amor
e as mãos sedentas de um abraço,
mas afinal no peito só trazia dor
e o coração esse, um pedaço.

Pedaço do que em tempos foi
e jamais voltaria a ser,
pena que eu não possa, anjo meu,
pela tua boca sofrer.

E sem mais desapareceu,
sem saber que as mãos minhas,
queriam pouco do que era seu.
voariam com um abraço...
Mas antes de nascer, morreu.

25 Junho 2000

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Conversa de embalar

É uma delícia ouvir esta mulher falar.
De tempos a tempos, volto a descarregar este podcast e adormeço com ele.
Admito que me agrada o Espanhol sul americano, mas para além disso, esta entrevista é de facto uma doçura do princípio ao fim.
Numa aula em que falámos de ideias para livros, a Ana Sofia descreveu uma personagem que por qualquer motivo se viu entregue a um longo período de reclusão, o que a levou a um confronto inevitável consigo própria (corrige-me se estiver errada, Ana Sofia). Nesse dia, lembrei-me novamente desta entrevista, em particular da passagem em que Ingrid Betancourt diz que o que mais a amedrontou foram os ruídos da selva que não conseguia identificar. Estranho, não é? Afinal não conhecemos tudo. Gostei desta pequena lição (e de todas as outras também), e fiquei irremediavelmente apaixonada pela sabedoria de Ingrid.
Por isso, se alguém ainda não ouviu, aqui fica.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

"In My Mind" Music Video



In my mind
In a future five years from now
I'm a hundred and twenty pounds
And I never get hungover
Because I
Will be the picture of discipline
Never minding what state I'm in
And I will be someone I admire
And it's funny how I imagined
That I would be that person now
But it does not seem to have happened
Maybe I've just forgotten how
To see
That I'm not exactly the person that I thought I'd be.

And in my mind
In the far-away here-and-now
I've become in-control somehow
And I never lose my wallet
Because I
Will be the picture of discipline
Never fucking-up anything
And I'll be a good defensive driver

And it's funny how I imagined
That I would be that person now
But it does not seem to have happened
Maybe I've just forgotten how
To see
That I'll never be the person that I thought I'd be.

And in my mind
When I'm old I am beautiful,
Planting tulips and vegetables
Which I will mindfully watch over

Not like me now
I'm so busy with everything
That I don't look at anything

But I'm sure I'll look when I am older

And it's funny how I imagined
That I could be that person now
That that's not what I want
But that's what I wanted
That I'd be giving up somehow
How strange to see
That I don't want to be the person that I want to be.

And in my mind
I imagine so many things
Things that aren't really happening
And when they put me in the ground

I'll start pounding the lid,
Saying, "I haven't finished yet,
I still have a tattoo to get,
It says, 'I'm living in the moment'".

And it's funny how I imagined
That I could win this win-less fight
Maybe it isn't all that funny
That I've been fighting all my life
But maybe I have to think it's funny
If I want to live before I die
And maybe it's funniest of all
To think I'll die before I actually
See
That I am exactly the person that I want to be.

Fuck yes.

I am exactly the person that I want to be.


Amanda Palmer

Mindelo

Partilho este quadro, que tem dois metros por um metro e meio (o equivalente a uma cama de casal), para que entendam melhor algumas das ideias que tento expressar. 
Pintei este quadro depois de visitar Cabo Verde. Representa uma vista, afortunada, da cidade do Mindelo na ilha de S. Vicente. Foi pintado com o objectivo de especificar muitos detalhes da cidade, como casas, os seus telhados coloridos, os barcos, as gaivotas e tudo o mais que fosse possível a um amador com pouco jeito para desenho, porém, quando cheguei ao ponto em que o quadro está, detive-me com as cores, que expressam muito mais do que desejei para o quadro todo e nunca mais tive coragem de lhe tocar. Não fui capaz de aceitar perder o que já tinha feito. Na pintura uma alteração é irreversível.
Estarei apenas com medo de o acabar? Estarei à altura? Valerá a pena acabá-lo?

A grande lição que tiro deste módulo é que a escrita não suja as mãos.


Última estação de Metro


João esperou até à última estação, deixou sair os últimos passageiros e quando teve a certeza que estava sozinho, deteve-se em frente ao mapa da rede do metro, abanou a lata de tinha preta e opaca, e apagou o Rossio. Sem querer, borrou também parte do Martin Moniz. A imperfeição da sua primeira pintura não o demoveu para continuar a repeti-la em cima de todas as portas da carruagem e o Martin Moniz, e mesmo a Baixa-Chiado, foram mesmo completamente poupadas em algumas das réplicas da sua obra.
Enquanto fugia, sentiu-se eufórico, como se tivesse conseguido apagar a vergonha de preto.

P.S. Mantenho a última frase por coerência com a aula mas concordo em cortá-la, ou apagá-la de branco.