sábado, 26 de novembro de 2011

Figuras que rondam

Há duas horas e trinta e cinco minutos que A Sombra cumpre, exímia, a incumbência que lhe foi destinada. O mais importante é que a cada quinze minutos A Sombra passe na Rua Quinta Nova do Almargem e que se certifique que a música continua a tocar. A Sombra empunha uma faca de cozinha na mão direita, os olhos raiados de sangue são dois rubis que ardem enquanto a noite acontece calma.
Às vinte e duas horas e dezasseis minutos os dois militares, agora trajados à civil, assombram à porta do Instituto. A Sombra inquieta-se: esta é a sua derradeira oportunidade para levar ao chefe os dois traidores. A faca de cozinha ergue-se no ar e no momento em que A Sombra se prepara para reclamar a glória que lhe escapa há tanto tempo os dois militares cristalizam-se num abraço, a música cessa finalmente de existir e A Sombra, enternecida com este final lamechas, evapora-se no ar.

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